POUCA
TRANSPARÊNCIA
As
dificuldades eram conhecidas. Ainda assim, a implementação da Lei de Acesso à
Informação no país ficou abaixo do esperado após sete meses de vigência dessa
ambiciosa legislação sobre a transparência do Estado brasileiro.
A maioria
dos prognósticos era pessimista quanto à capacidade do poder público de colocar
as novas regras em prática dentro do prazo fixado pela lei. De fato, os seis
meses entre a sanção presidencial e a entrada em vigor da norma foram um
período muito curto para adaptação. No Reino Unido, por exemplo, houve cinco
anos de preparo.
Desse ponto
de vista, poderiam resultar precipitados balanços sobre a Lei de Acesso no
Brasil. Não passou tempo suficiente para que os entes públicos conseguissem
aprontar a estrutura necessária para aplicar a legislação, que garante acesso
de qualquer pessoa à maior parte dos documentos públicos.
Não são
meramente operacionais, contudo, os obstáculos que atrapalham o avanço da
transparência. Em muitos casos, os entraves surgem num plano mais básico --e,
justamente por isso, aumentam a decepção de quem depositou alta expectativa na
lei.
Segundo
levantamento do Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas --entidade
que agrega diversas ONGs--, nada menos que 15 Estados se abstiveram de
regulamentar a norma federal.
São unidades
da Federação que não quiseram ou se mostraram incapazes de criar regras
próprias para detalhar, por exemplo, como serão processados os pedidos de
informação na esfera estadual. Sem tais especificações, não há como tirar a
legislação do papel.
Se essa é a
realidade nos Executivos dos Estados, não há razão para supor que nos
municípios seja melhor. O mesmo descaso pode ser verificado nos Poderes
Judiciário e Legislativo das três esferas.
A esse respeito,
basta lembrar que o Supremo Tribunal Federal tampouco regulamentou a Lei de
Acesso e que o Congresso Nacional criou mecanismos para inibir consultas feitas
pelo público.
Talvez ainda
mais frustrante seja a situação do Ministério Público. O pesquisador Fabiano
Angélico, da FGV, e o Movimento do Ministério Público Democrático enviaram
questões para as 30 unidades do órgão: 13 ignoraram as perguntas e 17 disseram
que ainda não estão preparadas para aplicar a Lei de Acesso integralmente.
Algo está muito
errado quando o órgão responsável por defender a ordem jurídica e fiscalizar o
cumprimento da lei se alinha com quem descumpre a norma.
Nesse
quadro, o fato de a Lei de Acesso ser pouco conhecida da maior parte dos
brasileiros até parece problema menor. Mas o Executivo federal, de longe o que
mais se preparou para promover a transparência, ajudaria o país se investisse
na publicidade da norma.
A pressão da
opinião pública é o melhor caminho para assegurar a aplicação dessa ferramenta
moderna de controle democrático.
Editorial
Folha de S. Paulo - 02/01/2013
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