3/12/2012 15:05, Por Iury Paulino - de Belém
Na semana passada, o BNDES (Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) aprovou o financiamento de R$
22,5 bilhões para a Norte Energia S/A construir a barragem de Belo Monte,
no rio Xingu (PA).
O empréstimo é o maior da história do
banco, três vezes maior que o segundo colocado, os R$ 9,7 bilhões destinados à
refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Além disso, representa 80% dos R$ 28,9
bilhões previstos para a construção da obra.
A maior parte desse dinheiro virá do
bolso dos próprios brasileiros, pois o BNDES depende cada vez mais de recursos
do Tesouro Nacional, ou seja, do dinheiro arrecadado dos impostos pagos pelos
cidadãos, para bancar empréstimos como este. De acordo com o jornalValor Econômico, de janeiro de 2009 até hoje, os repasses do Tesouro
ao banco estatal responderam por mais da metade (51,4%) dos R$ 538,2 bilhões
desembolsados pelo BNDES no período.
O Movimento dos Atingidos por
Barragens (MAB) questiona: quem é que vai pagar esse empréstimo? Esse valor,
como sabemos, será repassado para as contas de luz. Enquanto isso, os
beneficiados serão as grandes construtoras – Andrade Gutierez, Camargo Correa, Queiroz
Galvão e Odebrecht, três grandes empresas de máquinas e equipamentos – Voith,
Alstom e Andriz – e seguradoras envolvidas no Consórcio Construtor de Belo Monte (CCBM).
A venda da energia, por sua vez, nos
30 anos de contrato de concessão da barragem, vai gerar um
faturamento acima de R$ 100 bilhões. Os beneficiários desse montante serão
as empresas que formam a sociedade dona da barragem, a Norte Energia: a
Iberdrola, a Vale, a Cemig, fundos de pensão e parte da Eletrobras. A
estatal, por sua vez, também ficará com o prejuízo de cerca de R$ 500 milhões
por ano referente à parcela da energia do mercado livre.
Ou seja, enquanto a população
brasileira paga a conta, as empresas lucram com a apropriação dos rios e da
energia.
E pagando a conta, o que resta para a
população? Até agora, a construção de barragens no Brasil tem deixado um legado
de violação de direitos humanos. O caso de Belo Monte, que deverá ser a 3ª
maior usina do mundo, atrás apenas de Três Gargantas e Itaipu, não é diferente:
somente na cidade de Altamira, mais de 30 mil pessoas terão de deixar suas
casas no próximo ano, e ainda não tem garantia de reassentamento. Mais de 30
povos indígenas são afetados, segundo o Conselho Indígena Missionário. Os
pescadores, que dependem do rio para sua sobrevivência, não são reconhecidos
como atingidos. Na região, as ocorrências policiais aumentaram, a especulação
imobiliária atingiu níveis semelhantes a grandes metrópoles, há pressão sobre
os sistemas de educação, saúde e transporte, além da degradação do bioma
amazônico. E as obras das condicionantes – para as quais foi destinada a
quantia de R$ 500 milhões, muito pequena perante os valores da obra – estão
reconhecidamente atrasadas.
Por esses e outros motivos, Belo
Monte é alvo de 15 ações civis públicas do Ministério Público Federal. Também
já foi multada pelo Ibama em R$ 7 milhões no início deste ano. Esses fatos são
desconsiderados pelo BNDES, que, em tese, só pode financiar obras que estão
regulares perante a Justiça e os órgãos do meio ambiente.Belo Monte é mais uma ação de
violação dos direitos humanos e ambientais na Amazônia brasileira, financiada
com dinheiro público, sem nenhuma restrição ou preocupação com os problemas que
esta obra já causou, está causando e virá a causar. A dívida histórica do
Estado com os atingidos pelo setor vai crescendo e acrescentando novos
credores.
Iury
Paulino
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