6/01/2013
Brasil vive regime de exceção em decorrência da
aproximação da Copa e das Olimpíadas
“Vivemos hoje um estado de exceção [em decorrência da
aproximação da Copa do Mundo e das Olimpíadas]“, disse o professor do Instituto
de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ), Carlos Vainer. Ele fez uma análise da flexibilização que
vem sendo operada nas leis brasileiras para a fim de que sejam atendidos os
compromissos firmados com os organizadores internacionais dos eventos. Tais
alterações, segundo ele, podem provocar graves impactos no ordenamento jurídico
e social do país.
“A legislação brasileira não vige para a Copa do Mundo e
para as Olimpíadas. Mas, com a aproximação dos jogos, funciona como se tudo
fosse legitimado”, declarou o pesquisador. Ele cita, como exemplo de situações
que caracterizam uma exceção no andamento das obras do país, o estabelecimento
do Regime Diferenciado de Contratação (RDC), novos regimes fiscais de isenção,
suspensão de artigos do Estatuto do Torcedor, criação de termos jurídicos com
novas penalidades, como o marketing de emboscada, e liberação do visto para
entrada no país de torcedores que adquirirem o ingresso dos jogos.
“Com a Lei Geral da Copa, abriu-se uma exceção absurda. O
governo brasileiro abdicou do seu direito de decidir quem entra no território
nacional. Quem comprar entrada para assistir qualquer jogo da Copa tem
automaticamente, sem custos, o visto de entrada no país. Na prática, o Brasil
entregou a uma entidade privada o direito de emitir vistos de entrada no país”,
critica.
Vainer enumera três impactos que podem resultar dessas
medidas que chamou de exceção. A primeira diz respeito ao endividamento dos
estados e municípios. “Estamos assumindo, sem que tenhamos sido devidamente
consultados, o compromisso de pagar nos próximos 20, 30, 40 anos montantes que
restringem a capacidade de investimento nas nossas grandes metrópoles”,
explicou. Ele critica a falta de informação sobre os gastos reais. “Se tomarmos
como exemplo os jogos Panamericanos, vamos ter que multiplicar o orçamento
previsto inicialmente por dez”, declarou.
O segundo impacto destacado pelo professor é o
aprofundamento das desigualdades sociais, resultante das remoções de
comunidades para dar passagem à obras vinculadas aos eventos. “Não podemos
dizer que a segregação urbana tem início com a Copa e com as Olimpíadas, mas é
possível afirmar que esses processos estão aprofundando de maneira marcante
essa situação”, avaliou.
Ele critica o grande número de remoções em curso. “Estamos
assistindo à expulsão de populações pobres e a captura desses terrenos pelo
capital depois de valorizados pelos investimentos públicos. Isso é dramático e
aprofunda o caráter antidemocrático das nossas cidades. As pessoas estão sendo
retiradas das áreas, porque estão no caminho do investimento ou porque poluem a
paisagem”, apontou.
O pesquisador destaca ainda os impactos relacionadas à
segurança. “É grave abrir o precedente para que as Forças Armadas intervenham
na ordem pública: isso deveria ser tarefa das polícias. A história brasileira
recente mostra claramente esse risco. Você cria situações inaceitáveis, mas que
a sociedade acaba se acostumando”, explicou.
O pesquisador considera positiva a articulação nacional de
comitês populares que questionam o poder público em boa parte dessas medidas.
“Se olharmos por esse lado, é um balanço extraordinariamente positivo essa
vitalidade, essa capacidade de organização”. Ele destaca que tem ouvido relatos
surpresos da imprensa internacional sobre o processo de mobilização no Brasil.
“Jornalistas estrangeiros ficam surpresos com a vitalidade da resistência.
Muito mais poderosa do que qualquer outro país que passou por essa
experiência”, relatou.
Ele lamenta que as mobilizações não estejam tendo a
repercussão junto à mídia. “Apesar de algumas vitórias importantes,
principalmente relacionadas a alguns casos de remoção de comunidades, essa
resistência não tem sido capaz de alterar de maneira expressiva os rumos que os
governantes associados a grandes empresas nacionais e internacionais estão
dando aos jogos e ao país”, declarou.
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